Psicologia da Percepção Visual
O fenômeno da visão depende de três fatores,
sem um dos quais, deixa de existir:
- fonte de luz,
- objeto,
- sistema de percepção visual.
A fonte de luz emite feixes que, colidindo com os
objetos, refletem-se, mudam de direção e atingem a retina do
olho.
Percepção das Formas
O sentido da visão influencia e é
influenciado pela audição, paladar, tato, olfato e, principalmente,
pelos componentes psicológicos, responsáveis pela formação da
simbologia visual. O que significa dizer que um mesmo objeto,
observado por pessoas diferentes, poderá produzir reações
diferentes, dependendo do ambiente que o acolhe, da simbologia que
representa, das ilusões ópticas provocadas por sua forma, da
canalização de interesse do observador, da cultura, preconceito e
nível de informação relativa ao objeto.
Audição - Imagine uma mulher com voz de homem,
um cavalo que fala ou a falta do ruído ao final da queda de uma
travessa de cristal.
Paladar - Os comerciais de televisão utilizam,
em larga escala, a imagem que dá "água na boca" para vender
comestíveis.
Tato - Quantas vezes você já leu um cartaz com
a inscrição: veja somente com os olhos; é proibido tocar os
objetos expostos. Há uma necessidade, quase irresistível, de
tocar os objetos expostos num museu ou durante a escolha de artigos
numa loja, para complementar a informação visual.
Olfato - Que tal uma torta de chocolate com
cheiro de peixe?
Ambiente - Um cálice de vinho vermelho, servido
num jantar, nos impressiona de uma forma diferente da que, o mesmo
cálice, apresentado sobre um altar e, mais diferente ainda se
apresentado num ambiente de rituais de magia negra, sobre um
pedestal forrado com uma toalha de veludo vermelho, bordada em
ouro, na penumbra e iluminado por um facho de luz amarelada, vindo
do teto.
Simbologia - Uma gota de tinta vermelha,
escorrida no braço duma pessoa, transmite uma sensação diferente da
de uma gota de tinta azul. Um hospital pintado de vermelho ou
um quartel do Corpo de Bombeiros em azul claro pareceriam
totalmente ilógicos.
Ilusões ópticas - A influência, de uma forma
sobre outra, pode falsear a percepção, mesmo que tenhamos
conhecimento da realidade: mágica.
O estudo desenvolvido pela teoria gestaltista, que
nega a interferência da informação na percepção das formas,
possibilitou o desenvolvimento da tese, em oposição a
Psicologia da Forma, do gestaltismo clássico de
Max Wertheimer, Wolfgang Koehler, E. Rubin, Kurt Kofka e
outros.
O interesse despertado - Se três pessoas; um
estilista de modas, um fabricante de sapatos e outro, cabeleireiro;
forem a um mesmo show, cada um canalizará a observação
para a sua área de interesse.
Cultura - Um arco e flecha, um violino e um
microcomputador, serão percebidos, por um índio primitivo, de uma
maneira e, por um cidadão suíço, de outra.
Preconceito - Um frasco contendo um líquido
cristalino será percebido, pela mesma pessoa, de várias formas
diferentes dependendo do rótulo: ÁGUA PURA, H2SO4, ÁGUA
BENTA DE LURDES, LÁGRIMAS DE CRISTO ou
VENENO. A impressão que um homem maltrapilho
e sujo nos causa é diferente da que nos causaria o mesmo homem,
limpo, muito bem barbeado e elegantíssimo.
Informação - Um caminho, pelo qual já passamos
umas quatro ou cinco vezes, causa uma sensação bem diferente
daquela que causaria um caminho estranho. Um desconhecido
batendo em nossa porta com uniforme dos Correios causa uma sensação
e um desconhecido com uniforme da Polícia...
O que os olhos não vêm o coração não
sente.
Quase todos são categóricos ao afirmar
que gosto, religião, política e futebol não se discute.
Entretanto poderíamos discutir parte dessa realidade sem tentar
contestá-la.
Se, na premissa, pudermos compreender que cada
indivíduo traz uma bagagem genética diferente (impressão digital,
características fisionômicas, altura etc.) aceitaremos, também que,
parte dessa bagagem, é oculta e corresponde estrutura biológica das
vísceras.
O cérebro, como parte das vísceras, coordena todo o
nosso comportamento, desde as funções biológicas até as reações
psicológicas, diante das informações captadas do mundo
exterior.
Os órgãos dos nossos sentidos são as portas das vias
aferentes dessas informações e os sentimentos são externados pelas
vias eferentes, de acordo com informações eletroquímicas enviadas,
pelo cérebro, aos músculos e às outras vísceras.
A memória arquiva, desde a concepção, as informações
que irão participar da formação do nosso caráter, trabalhando sob o
comando da nossa estrutura mental, que é bagagem genética, formando
a nossa personalidade.
Para observar um cão sem permitir que os sentimentos
interfiram na avaliação das suas qualidades e defeitos é necessário
desenvolvermos nossos conhecimentos técnicos, nossa cultura
cinológica e avaliarmos nossos sentimentos com relação ao grau de
amizade, simpatia ou antipatia pelo cão ou pelo seu
proprietário.
Na realidade, o conceito de amizade pode, também, ter
uma outra óptica. Presentear um "amigo" com um prêmio
imerecido seria, na minha opinião, uma atitude, no mínimo, pouco
sincera porque iria enganá-lo fazendo com que, acreditando que seu
cão tenha qualidades que, realmente, não tem, prejudique o
aprimoramento de sua criação.
Uma súmula correta, enaltecendo as qualidades e
mostrando os pontos, onde a criação poderia ser melhorada é a
melhor maneira de servir a um amigo. Se esse "amigo" se
ofender, não era amigo.
Ao examinarmos um exemplar de nossa propriedade
corremos o risco de não levarmos em conta o corujismo e nos
iludirmos, super valorizando suas qualidades e sub-avaliando os
defeitos. Corremos o mesmo risco se nos propusermos a ser
"mais justos que o rei" e procedermos de forma inversa.
Harmonia, Equilíbrio e
Proporção
Palavras como beleza, harmonia,
equilíbrio e proporção, muito utilizadas em arte, moda, cinofilia
etc., são, na maioria das vezes, portadoras dum certo ar de
mistério que posiciona o leigo, automaticamente, como incompetente
para o conhecimento do belo por falta absoluta de parâmetros.
Aí, são estabelecidas discussões monumentais cujo final resulta
sempre num impasse: questão de gosto pessoal. É a famosa
frase consoladora: "que seria do azul se todos gostassem do
amarelo?"
Beleza ou fealdade são conceitos
formados através do aprendizado de parâmetros palpáveis,
discutíveis e mutáveis. A beleza da mulher americana está, de
tal forma, enraizada nos parâmetros "Marilyn Monroe" que a
negra bonita deve ser parecida com uma branca.
No renascimento as mulheres de Tiziano retratam o
padrão de beleza da época: gordas e peitudas. No Brasil de
1960 a mulher elegante deveria ser alta, magra e com seios bem
pequenos. Nos concursos internacionais de beleza da mulher,
"Miss Universo", esses padrões obedecem à medidas de busto,
cintura, quadris, coxas e tornozelos.
Em cinofilia, os padrões de beleza dos cães são
escritos, depois de muitas discussões, avaliações e reavaliações,
pelos criadores da raça, exatamente para reduzir, ao mínimo, a
possibilidade de erros no julgamento, por parte dos árbitros de
exposições.
Então, podemos concluir que beleza, ao contrário de
ser uma questão de gosto pessoal, é a fidelidade máxima ao texto do
padrão da raça e pode sofrer alterações, sempre que houver
necessidade de adaptação a novos conceitos. Dessa forma,
parte da beleza de um exemplar canino está no seu temperamento e no
seu caráter. Existem raças cujo temperamento é tão importante
que, para qualquer desvio do ideal, é recomendada a desqualificação
do exemplar.
Harmonia
É comum ouvirmos que um cão é
harmonioso. Quando pedimos explicação nos dizem que ele é
harmonioso porque é bem proporcionado. Se insistirmos em nova
explicação dizem que tem formas equilibradas... e aí
desistimos admitindo nossa incompetência para assuntos
cinófilos.
Harmonia é a ciência que tem por objetivo a formação
de uma cadeia de combinações que guarda uma determinada relação que
obedece à leis preestabelecidas.
Na música, harmonia é a ciência da combinação,
formação e encadeamento de acordes que mantém uma relação lógica,
matemática, entre os valores dos sons (número de vibrações por
segundo, freqüência) dentro duma oitava (cada oitava seguinte tem o
dobro do valor da freqüência da oitava precedente).
Nas artes visuais, harmonia numa composição é
determinada por uma relação de proporção que poderá até ter sido
criada pelo artista, como, por exemplo, o número de ouro 0,618;
fornecido pelo rebatimento da diagonal de um quadrado sobre um dos
lados, criado por Fibonaci. Esse valor foi
utilizado até o século passado quando Piet
Mondriaan, pintor suíço estruturado no abstracionismo
concreto, estabeleceu novos valores que influenciaram toda a
arquitetura moderna, inclusive a filosofia da
Bauhaus, na arquitetura, escultura, teatro e
dança.
Na cinofilia é a qualidade do cão, na qual, o corpo
deve ter uma relação lógica e matemática de proporção métrica entre
as partes, determinada pelo padrão de sua raça. Existem
padrões que omitem muitos desses números, tornando o julgamento
mais subjetivo e difícil para o árbitro.
Alguns desses números são:
Proporção crânio-focinho:
Doberman - 1:1;
Pastor alemão - 1:1;
Bóxer - 2:1;
Rottweiler - 3:2.
Proporção
altura-comprimento:
Doberman - 1:1;
Skye Terrier - 1:2;
Pastor Alemão - 8,9%;
Husky - 10%;
Rottweiler - 15%.
Profundidade de peito:
Doberman - 50% da altura;
Pastor Alemão - 50% da altura;
Husky - 48% da altura;
Rottweiler - 48% da altura.
Equilíbrio
Outra dessas palavras terríveis
para o leigo, importada do inglês balance, também muito
usada como balanço ou balanceamento. "Angulações bem
balanceadas"... Como se pode pesar angulações? Aí as
explicações são inversas: é o cão bem harmonioso, proporcional
etc.
Num cão em estação (parado com as quatro patas
no chão), o equilíbrio de proporções é estudado através das
alavancas cujo fulcro (ponto de apoio) está entre as duas
forças.
Uma balança de pratos com 1 quilo de peso em cada um o
fulcro fica no meio. Na outra, para haver equilíbrio, o
fulcro é deslocado de modo que o lado direito do braço da balança
seja o dobro do tamanho do braço do lado esquerdo.
Medir isto num cão e calcular esses valores para cada
exemplar durante uma exposição seria, além de pouco prático,
inteiramente impossível. Entretanto nos possibilita ter uma
leve idéia de como é possível ver o equilíbrio das proporções de um
cão.
Funciona mais ou menos como numa escola de arte.
Aprender a ver é pura questão de exercício da observação e da
memória visual.
Equilíbrio de Angulações
Como sabemos, o equilíbrio se dá
quando os dois lados da balança têm o mesmo peso. Esse
conceito de equilíbrio é válido, também, para valores diferentes do
peso.
Uma pessoa equilibrada é aquela que sabe avaliar bem
os prós e os contra duma questão.
Quando falamos de equilíbrio de angulações, nos
referimos aos valores dos ângulos formados pelas articulações
escapuloumeral e coxofemoral. Embora um cão apresente
angulações desconformes com o padrão, poderá apresenta-las
equilibradas se as posteriores forem proporcionais às
anteriores.
Existem raças cujo padrão pede angulações anteriores
mais abertas do que as posteriores, como os terrieres, por
exemplo. Nesses casos, o equilíbrio se mantém verdadeiro
quando a relação entre as angulações anteriores e posteriores é
mantida, mesmo que os valores dos ângulos não correspondam aos
estipulados.
Os valores das angulações são estudados pelos
criadores das raças com a finalidade de melhorar o seu desempenho
no trabalho, otimizando a movimentação, de acordo com a
especialidade da raça.
AVALIAR é COMPARAR... e o
PARÂMETRO é o PADRÃO DA RAÇA.
O melhor é o ideal... e o ideal
é o PADRÃO DA RAÇA.
Nenhum cão poderá ser melhor que o
padrão da sua raça porque, se o for, não estará de acordo com o
ideal.
Quando os criadores descobrem que angulações mais
fechadas ou mais abertas melhoram o desempenho do cão, para a sua
finalidade, ou quando um focinho mais longo ou mais curto reduz a
incidência de defeitos de mordedura, o padrão é imediatamente
alterado.
O ideal será o novo padrão.
Resumo
Ao avaliar um cão, e isso não é nem deveria ser privilégio dos
árbitros, mas também, de quem gosta de exposições caninas e,
principalmente, de quem cria, é necessário observar alguns pontos
importantes:



1. Iluminação do ambiente.
Direção da luz: a fonte deverá estar
SEMPRE ATRÁS do observador, no máximo acima, e
mesmo assim, deve-se levar em conta que as sombras fortes modificam
as formas do objeto observado. Se a fonte de luz estiver
atrás do cão observado poderá modificar de forma radical a sua
avaliação.
Qualidade da luz: ter o cuidado de examinar o cão sempre durante
o dia, preferencialmente nublado. No caso de iluminação
artificial evitar as lâmpadas a gás de mercúrio ou iodo, luz
fluorescente ou fraca. Os refletores ideais para a
iluminação, tanto em exposições quanto nos locais de exame, são as
de quartzo.
2. Apresentação.
Peça ao apresentador que posicione o cão no sentido da sua
leitura. Se você seguir o roteiro de exame descrito no
capítulo 4 da técnica da observação, a cabeça deverá estar voltada
para o lado esquerdo e a cauda para o lado direito.
3. Autoconfiança.
Evite influências, principalmente se você estiver inseguro, não
peça nem permita opiniões. Procure errar sozinho, somente nos
erros se aprende. Na ocasião em que você acertar, não terá
aprendido nada, terá apenas, utilizado os conhecimentos adquiridos
com os erros.
4. Padrões de Raças.
Conheça profundamente o padrão da raça que você vai
analisar. Isto lhe dará segurança e independe de gosto
pessoal.
5. Teoria.
Esqueça toda! A teoria só provoca mais
insegurança. Compare o exemplar que você está observando com
o que você conhece do padrão da raça.
6. Preconceito.
Faça um esforço para livrar-se de qualquer preconceito.
Bruno Tausz
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